_ Yago, você levou o coelhinho pra morar na roça?
_ Levei, tia Tati.
_ E o coelhinho tá feliz?
_ Sei lá. Todo bicho tem cara de triste.
Só cachorro, quando corre, é que a gente vê que ele ficou alegre.
De volta aos precipícios
Pequenos filetes de água clara
traçam desenhos imaginários no meu corpo.
De volta aos precipícios
Emudeço; e o silêncio faz um eco doído,
tocando cada vértebra como se fosse uma linha fina e tensa.
Sinto o vento, mas perco o ar.
Sinto os desenhos que aparecem como tatuagens.
São traços finos, seguindo o caminho das veias,
drenando os demônios,
mas sem força nem profundidade suficientes para expulsa-los.
De volta aos precipícios.
Abro os braços, mas não alço voo.
O medo paralisa o futuro.
Ele cercou-se de luxo para esconder sua pequenez.
Tentou limpar a lama dos pés nas flores do do jardim.
Sob um terno bem talhado, escondeu os espinhos.
Ensaiou o texto sobre as pessoas que um dia ele sonhou ser.
E borrifou os melhores perfumes, dos melhores vinhos, em sua fala empolada.
Mas o espelho retrovisor do carro o desnuda.
No banco de trás, sem rock’n’roll,
o homem mira o que não existe,
sufocado pelos vidros fechados e escuros.
Até o ar-condicionado revira seu estômago, lembrando que não somos muito mais do
que o vômito que nos sucede, do que a poeira do caminho.
O carro anda devagar, devagar como se movem todos os seus fantasmas.
Porque eles o acompanham aonde quer que vá.
Chamam seu nome, gritam as palavras mais simples,
arrepiam todo o seu cabelo alinhado.
Mas os fantasmas flutuam. São livres. Quem arrasta as correntes é ele, só ele.
Um rascunho do que já foi, do que já viveu, do que deixou de ser.
Ali, sem o terno, os vinhos e o ar-condicionado, ele sabe que sobrou pouca coisa.
Quase nada.
Like a broken winged, like a broken bird
She senses every damn thing that's near her
And nothing in the light of day could see how
Her happiness faded away
Her happiness faded away with the night
Away with the dawn
As the sea faring gun
The fish and the heron
Walking stiffly, the stalker of oblivion
Keep me alive in this
Stars at night
And they shine on you either way
Broken wing on the bird
A broken wing
He did not have to break
Only reading, reading the long signs
And thinking, hell
Where his arm is
Just saying
Could it be I'm just saying the safe thing again
And, Ladies and Gentlemen
Can't reread on the help
Lend me your fires, 'cause I'm broken winged
Could be anything, anything
Any day, any time or year or month
Satisfied, are you satisfied
Now that you're satisfied
Done it again.
Quando as crianças eram pequenas
e os sonhos grandes.
Distância não havia.
Poemas escritos em guardanapos.
Promessas em páginas dobradas de livros.
O tempo não deixava marcas.
Na pele, no chão, nos móveis.
O que eu queria era mudar o mundo.
E o que eu temia era que ele mudasse.
Você dá voltas ao mundo.
Eu não consigo tirar os pés do chão.
É ele que se move sob os meus pés
e eu não flutuo.
Despenco dos precipícios.
Não tenho essa leveza das bailarinas.
Nunca tive.
Jamais fui das delicadezas.
Dos passos suaves.
Sou das palavras compridas, proparoxítonas, trissílabas.
Lúgubres, íngremes, sôfregas...
às vezes patéticas polissílabas.
Eu queria poder dizer, mas não posso.
Eu queria poder sentir, mas não sinto.
A verdade que te digo eu minto.
O beijo que te dei ainda está comigo.
As mentiras que eu conto quando digo que não ligo...
ah, não ligo mais.
Ah, se você soubesse,
se você ouvisse o que eu digo baixinho enquanto você dorme.
Mas é tão baixinho que nem consigo escutar.
Se sou eu mesma quem diz essas coisas tão sinceras.
Não, não deve ser.
Deve ser o vento que rouba palavras das janelas alheias.
Ah, se você soubesse,
se você visse o sorriso que eu te dou quando você dorme.
Mas é tão doce que nem deve ser meu.
Não, não deve ser.
Deve ser dos filmes e dos seriados, escapado da tevê.
Ah, se você soubesse,
se você sentisse o carinho que sinto por você enquanto dorme.
É tão sincero.
Que não, não deve ser meu.
Deve ter caído dos meus livros, do meu edredon,
de algum amor passado.
Eu não sei...